14.de
Despertou com o toque irritante que a faz acordar assustada todos os dias. Vestiu a roupa das sensações diárias e andou dois quarteirões até chegar ao colégio. Esperou seis tempos de aula para que pudesse voltar para casa. Chegou. Comeu um lanche e voltou para o mesmo lugar, mas agora estava entusiasmada porque conseguiu um papel no teatro. Subiu no palco e vestiu a máscara da mentira. Enganava a si própria e ao público, que imaginariamente lhe assistia. Esgotou o tempo da aula. Deslocou-se em frente a algumas salas. Sentou em um banquinho azul.
Ele estava presente. Caminhou em sua direção e parou em sua frente. Resolveu dar um sorriso meio desbotado e retalhado. Os olhares deles se encontraram, de um jeito incoerente, como se estivesse acontecendo algo de ruim, mas que ninguém tentasse impedir. Ele respirou fundo e tropeçou em palavras inconvenientes, assim como cospem no chão quando algo é ruim, nojento. Não era o que ela esperava, mas o destino revolveu atirá-la contra o chão. Dói, machuca, desgasta. Atirou-as de volta para o mesmo lugar aonde foram arremessadas. Aquele lugar ficou vazio, miúdo também. Vestiu-se então a fantasia do desgosto e da saudade. Voltou para casa.
Lembrou-se de cada raio de sol daquele dia, e das gotículas de chuva que caíram das nuvens dos seus olhos serenos. Carros buzinavam na rua, pessoas falavam em um elevado tom. Mesmo com bastantes corpos se movendo, viu o mundo sem cor, a comida ficou sem gosto e suas fantasias já não faziam mais graça nem efeito. Durante horas misturavam-se uma junção de momentos, palavras, sentimentos e erros, que ficavam cravando sua consciência. Já não sabia o peso das palavras e muito menos dos seus gestos. Os minutos estavam passando rápido. E o amor? Também.
(Vivian Fernanda)